Livre, leve e…

Livre, leve e...

Sugestão de música para dar ritmo às linhas: No Ceiling – Eddie Vedder

Sentado no pico mais alto do morro daquela praia, admirando o mar, vendo as aves a voar e sentindo o vento soprar, se notou livre de tudo. Contabilizando seus 25 anos, em meio a uma fase de intensa reflexão,  pôde perceber que a vida se resumia muito mais a muito menos.  Pela primeira vez se sentiu no agora, e viveu cada segundo como se fosse o último. Muito além de toda loucura desenfreada do popular sentido da expressão.
O tempo parou,  e ele gostou. Conflitos abandonou, problemas abafou e amores deixou. No silêncio de sua alma, em um turbilhão sublime da mais sincera paz, tornou aquele um dos momentos mais verdadeiros de sua vida. O som do mar o embalava como a melhor partitura já escrita, e o Sol que lhe ardia os ombros tomava conta do peso que por tempos carregou.
Mesmo sabendo que aquilo não seria eterno, fez questão de voar o mais alto possível, cravando sua plenitude no azul mais intenso do céu. E teve a certeza de que pode, sim, ser livre, leve e… Completo.

“Não temos de nos preocupar em viver muito tempo, mas em viver em pleno.”
Sêneca

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O Errante

Arte 5

Pelas ruas perambula, procurando respostas, ou talvez sentidos. Sob a luz do luar, e a bruma da noite, cruza olhos para algo encontrar. Talvez um brilho diferente, que aparente a eternidade. Eternidade abortada de seu antigo olhar. Que com os pedaços de seu órgão mais pulsante no chão, custa a aceitar. Mas continua andando, vagando.

Deitado, tentando assimilar as dores do noticiário com a sua própria, pega no sono. Horas depois, quando nas ruas já não se ouve mais nada, é interrompido pelo frio do suor que brotara de seu corpo em sua batalha infindável consigo mesmo. Suor que, como suas tristezas, liberam todas as impurezas e pecados da carne.

Por vezes corre. Sem rumo e direção. Vislumbra novas ruas, rostos e esquece-se dos desgostos. O medo de lhe faltar ar para subir a colina toma conta de sua mente e corpo, afastando todos os outros ali presentes. Começa sua subida, e sente que nunca enfrentara algo tão íngreme. Com muitas pedras pelo caminho, e o calçado já gasto, equilibra-se para ao topo chegar. Quando avista o pico a poucos metros de sua cabeça, sorri, e em sua chegada sente-se pleno e livre de todo o mal. E ele descobre que, por mais difícil que seja a subida, desistir não faz parte de seu vocabulário.

Para a maioria dos corpos e mentes, perdas e decepções talvez sejam apenas arranhões do percurso. Para ele, são mais como tatuagens. Dolorosas quando marcadas no corpo, mas dignas de serem sentidas até o final, seguidas de um suspiro de alívio inebriante. Contemplando apenas as cores e traços, e pouco lembrando-se da dor.

E por aí vai o homem. Caminhando, cruzando olhares, correndo e colecionando tatuagens. Tudo para que, um dia, possa sentar, fechar os olhos e sorrir eternamente.

“Aquele que nunca viu a tristeza, nunca reconhecerá a alegria.”
Khalil Gibran

Último ato

Arte 2

Lembro-me bem do dia que a conheci, assim como dos melhores de minha vida. Não pelo fato de ter sido algo avassalador, e sim pelo contexto que se sucedeu daquele momento. Era uma manhã comum de trabalho naquela velha repartição pública. O pó dos documentos, e o tédio do som circular do ventilador só mostravam que nada fugia à normalidade. Até o momento em que ela apareceu. De primeira, tive o típico pensamento de um caçador à procura de caça. Afinal, ela me parecia uma presa interessante, atraente, e extremamente vulnerável. Vulnerabilidade que transbordava em seus olhos famintos por vida.

Passara o dia, olhos cruzando-se, cantos de olho, e um sorriso cruel, mas muito sincero, que tomara conta de meu rosto. Já imaginava as cenas dos próximos capítulos. Mesmo que na vida dela já se passasse uma novela, com atores definidos e diálogos mais do que decorados. Naquele momento, com toda minha crueldade e pouco caso, a única ideia que me passava pela cabeça era de ser um novo personagem, e alterar o seu roteiro, com apenas dois atos. O primeiro, e o último, em um curtíssimo espaço de tempo. No entanto, não foi bem assim que aconteceu.

Com o tempo, e seus artifícios únicos de sedução, o caçador que havia dentro de mim viu-se por ter que baixar a guarda, pendurar as botas e guardar a espingarda lá em cima do armário. Do sorriso cruel, não sobrou nem o canto da boca. Peguei-me a sorrir com os olhos, o coração e a alma. E o pouco caso? Ah… este tornou-se um caso todo. Caso que corrompeu tudo o que eu tinha de pior, mesquinho e egoísta. Aprendi a dar uma chance, e aceitei dividir. Ótimos foram os momentos. Ótimas foram as viagens. Mesmo que várias entre de quatro paredes, madrugadas adentro. Aliás, essas eram as melhores. Sessões de autoconhecimento, livres de pudor, crenças ou mitos. Horas e horas nas estradas do passado, presente e futuro. Literalmente uma viagem sem fim.

Fim. Eita palavrinha complicada. Nunca mencionada à sério em nosso vocabulário, era apenas jogada ao vento nos momentos de som e fúria. Nada que devesse levar crédito. No entanto, essa acabou sendo uma palavra que assombrou silenciosamente nossas viagens. Mal sabia eu que aquela sensação estranha que me acompanhava durante alguns momentos era o silencio ensurdecedor de sua aproximação. E esse acontecimento vinha acompanhado de uma imensa ironia. Aquela, que antes era a presa indefesa e vulnerável, tornou-se uma versão melhorada de seu próprio caçador. Uma personagem que alterou o seu próprio roteiro, e conseguiu colocar em prática o último ato. Dizendo aquele temível, e inaudível, adeus.

 

“Deve-se temer mais o amor de uma mulher, do que o ódio de um homem.”
Sócrates

O Grande Ato

– Bom dia.

– Bom dia, senhor. Qual seu destino?

– Algum lugar onde a felicidade esteja guardada para mim.

– Senhor?

Pergunta a atendente, torcendo o nariz e franzindo a testa.

– Sim, sim. Isso mesmo. Quero uma passagem para a felicidade. Quero uma passagem para o meu lugar no mundo.

– Senhor. Este destino não existe. Aqui nós fazemos apenas viagens estaduais. Gostaria de uma passagem para o litoral?

Responde a atendente, com um tom de secretária eletrônica, misturado com de vendedora de telemarketing.

– Litoral? Será? Será que é lá, debaixo daquelas areias, ou dentro daquele enorme oceano, que está a minha felicidade? Não, acho que não.

– Senhor. Só possuímos passagens para destinos estaduais. Não existe nada aqui no sistema que seja parecido com o que o senhor deseja.

Responde a atendente, com o mesmo tom de antes.

– Tudo certo, então. Obrigado.

– Disponha, senhor. Espero que encontre o que procura.

O homem sai do guichê da rodoviária, cabisbaixo e com um semblante de quem mais uma vez fracassara. Há aproximadamente dez anos, essa era a rotina de Adão. Procurar a felicidade em guichês de rodoviárias, lojas de conveniência, locadoras de filmes, canais de televendas e outros. Durante toda sua vida Adão se sentia diferente, único. Sempre pensando que Deus havia reservado algo de especial para ele. Até brincava com seus amigos, dizendo:

– Calma, calma. Só estou esperando o meu momento para O GRANDE ATO!

O seu grande ato. Sua ponte para a felicidade. Algo que lhe aconteceria, e que o impulsionaria para frente, fazendo com que sua vida mudasse da água para o vinho.

Ainda jovem, Adão tentou emplacar seu grande ato com um gol de placa. Frequentou peneiras e mais peneiras, de times de futebol. Tentava mostrar seu talento. Tentava mostrar que poderia ser o novo Pelé. Ou melhor, ser alguém além do Pelé. Porém, o futebol que ele imaginava ter, era o mesmo que todos os técnicos viam que ele nunca poderia colocar em prática. Garrincha tinha as pernas tortas, mas era um mágico com a bola. Adão também, tinha as pernas tortas. Mas suas pernas faziam a mágica de tropeçar uma na outra, levando-o ao chão por várias vezes. Seu primeiro fracasso para o grande ato.

Adão, como não era bobo, fazia de tudo para que seu grande ato chegasse. Jogava na mega-sena toda semana. Quem sabe seu grande ato fosse acertar seis dos sessenta números da cartela, e se tornar o mais novo milionário do Brasil. Poderia comprar o que quisesse, e ficar famoso como um grande filantropo. Porém, Adão nunca acertara mais de três números de um mesmo jogo. Não tinha muita sorte com jogos.

Outra tentativa de um grande ato era de algo mais digno, alcançado pela bravura. Por vezes Adão rondou ruas, na calada da noite, a fim de encontrar alguma pessoa indefesa sendo assaltada, e salvá-la. Poderia ser seu grande ato. Poderia se tornar um herói. Alguém como Batman, o guardador da cidade. Não deu muita sorte. A única vez em que presenciou um assalto foi o seu próprio. Adão percebeu que com armas de verdade, munidas de balas de verdade, não teria muitas chances. Levaram-no o relógio e os óculos, deixados por seu pai.

Por anos e mais anos, Adão teve tentativas frustradas para ter seu grande ato. Tentou escrever um best-seller, mas mal conseguia dar sentido a um paragrafo. Tentou ser médico, para ser o pioneiro na descoberta da cura da AIDS, mas não conseguiu ao menos passar no vestibular. Esportes, jogos, ações heroicas, atuações, livros, recordes. Tentou, tentou, tentou, e nada. Tanta tentativa e tanta frustração levaram Adão à loucura. Loucura que fez com que achasse que a felicidade pudesse ser comprada, ou facilmente encontrada. Mesmo que para ele fosse difícil, ou até utópico.

Este é Adão. Homem de 47 anos, mais senil do que a própria velhice. Saindo de mais um guichê, de cabeça baixa, sem ter encontrado a sua felicidade.

PAH PAH PAH…

Tiros? Ouço tiros?

Sim, são tiros! Está acontecendo nesse exato momento um assalto em um dos guichês da rodoviária. Todos estão correndo, apavorados. O pânico se alastrou pelo local. A polícia de um lado, os bandidos do outro, e bem no meio uma mulher com um bebê de colo. Espera… Tem um homem correndo em direção ao tiroteio! Ele se jogou em cima da mulher e do bebê, e tomou três tiros por eles!

Finalmente, Adão conseguiu. Conseguiu seu GRANDE ÚLTIMO ATO.

“A ambição é o último recurso do fracassado.”

Oscar Wilde

Marina

Manhã de segunda-feira, 23 de Abril. Um dia comum, como outro qualquer. As pessoas já dominam as ruas da cidade. O Cristo se mostra incomparável, acompanhado de um céu azul… Azul. No centro da cidade, entre rotas de carros, ônibus e transeuntes, nota-se um prédio de altura média, com ladrilhos cor de creme. Edifício Pompeu, dez andares, trinta e seis apartamentos ocupados e quatro sem uso. Vinte e três famílias. Pais, mães, filhos, filhas, avós, avôs, cachorros, gatos, peixes e papagaios. Treze era o número de solitários. Estudantes, viúvas, amantes e Marina. Vinte e três anos, recém-formada em Biologia, e sem trabalho fixo.

O Sol esturrica a janela de PVC, amolecendo e estalando sua estrutura. Lentamente ela abre os olhos, afastando o lençol que, com o suor, grudara em seu corpo. Solta um leve bocejo, mudo, fazendo fluir o ar de um novo dia em seus pulmões. Com toda calma do mundo, alonga-se. Pescoço, ombros, coluna, quadril, pernas e pés. É um ritual matutino. Depois de recompor seu corpo, desconjuntado pelos desníveis do colchão, levanta-se e segue direto para o banheiro. Com os cabelos desgrenhados e os olhos borrados pela maquiagem da noite anterior, olha-se no espelho, e suspira. Olha para o vaso sanitário, que está com a tampa aberta, levanta a sobrancelha, e ri.

– Homens.

Com as mãos, em um puxão só, abaixa sua calcinha fio dental preta. Tivera uma noite interessante, sexualmente falando. Senta e, como se não houvesse amanhã, jorra os líquidos da madrugada privada adentro. O som do líquido encontrando a água vai diminuindo, ao mesmo tempo em que seus ombros vão relaxando. Se limpa, se levanta, e torna ao quarto. Fica parada na porta, olhando para o vazio de sua bagunça. No chão, ao lado da cama e de uma pilha de malas, um guardanapo se destaca. É um bilhete.

“Gostei muito da noite, e ainda mais te tê-la conhecido.

Espero que nossos olhos tornem a se admirar, algum dia.

Muita sorte nas novas águas desse imenso oceano que é a vida.

Com carinho, e esperança…

L.R.”

L.R. era o homem com quem Marina passara a noite. Talvez o único homem de verdade que passou por lá, nos quatro anos em que ela ali morou. O único homem que a tocou sem precisar haver algum tipo de troca. O primeiro homem que beijou sua boca com um gosto sentimental. O primeiro a olhar no fundo de seus olhos, e agradecer, sinceramente, por aquele momento. O que ouviu suas verdades, riu de suas piadas e olhou complacente quanto a seus medos. O primeiro atraído pelo que ela era, e não pelo personagem de sua “profissão”. O primeiro, e último.

Marina, de profissão mais antiga do que sua Biologia, sem emprego fixo, isenta de qualquer benefício, asfaltava a estrada de sua vida com o dinheiro que conseguia em programas. Sua necessidade falava mais alto, alto como seu preço. Menina bonita, inteligente, estudada, fluente em mais de quatro línguas. Com apenas um programa por semana, conseguia o mínimo de dignidade para viver, estudar e direcionar seu futuro. Com todas suas qualidades, Marina, diferente de tantas outras do ramo, tinha como não fazer daquilo o seu sustento diário. Apenas sabia aproveitar o que conquistou para prestar serviços não tão convencionais. Serviços estes que, agora, está a levar para Salvador. Uma semana atrás recebera um convite de uma ex-colega de quarto que, como ela, sem trabalho fixo, bonita e estudada, estava se dando muito bem. Além disso, era a oportunidade que Marina tinha de fazer um curso de especialização em Biologia Marinha e, finalmente, realizar seu sonho. Sonho que ela nunca tivera dormindo. Sempre de olhos bem abertos, apenas imaginando e arquitetando. Estudar a vida dos corais era o que queria. Abrolhos era seu destino. Sua realização como indivíduo, sua meta. Independente de como fossem suas estradas, mares ou amores.

“Há duas tragédias na vida: uma a de não satisfazermos os nossos desejos, a outra a de os satisfazermos.”
Oscar Wilde

As melhores vergonhas

Volta e meia, em minutos de puro ócio, me pego olhando para o nada, e revivendo em meus pensamentos momentos do passado. Lembrar-me de como eu era, o que fazia, e comparar com meu presente é sempre motivo de risadas e reflexões. Corriqueiramente sinto vergonha de algumas coisas. Não uma vergonha como a sentida pelos antigos gregos, mas uma vergonha inocente, uma vergonha sem vergonha. Há vergonhas e vergonhas, umas mais claras, outras mais escuras. Porém, todas com o mesmo sentido de riso ou reflexão.

Ah, que vergonha de minha adolescência. Que vergonha daquelas roupas, daqueles cabelos, daqueles trejeitos e daquelas palavras que soprava ao vento, sem medo de ser feliz. Das primeiras baladas, em momentos que, com meus amigos, subia em cima das caixas de som e dançava para multidão, sentindo-me a principal atração das duas próximas músicas. Que vergonha. Que vergonha dos porres. Vergonha alcoólica, em que soltava verdades etílicas, vezes acompanhadas de lágrimas, outras de palavrões. Dos tropeços nas calçadas, dos tombos nas escadas. Ah, que vergonha. Que vergonha das lágrimas derrubadas por certos filmes. Estas que, certa vez, desceram meu rosto ao mesmo ritmo da cachoeira que levava Lessie para seu suposto calvário. Dos filmes de drama que me faziam assemelhar minha vida a algo, ou dos de horror que me garantiam alguns batimentos cardíacos a mais por minuto. Ah, aquelas bandas. Ou melhor, boy bands, garotas temperadas, ou qualquer outro tipo de enlatado sonoro dos Estados Unidos. Às vezes a vergonha pode ser até um sentimento sovina. Que vergonha do dinheiro gasto para assistir àquele filme, para comprar aquele CD ou até por aquele que deixei na saída da casa noturna que agulhara meus ouvidos a noite toda, com músicas que me transportavam para o inferno sonoro. Que vergonha de ter sentido vergonha. Vergonha de avermelhar minhas bochechas ao presenciar meu pai fazendo imitações. Vergonha de sair com aquela roupa dada por um parente. Vergonha de dizer a verdade, e de ter sorrido a um ato bondoso. Que vergonha de ter tido vergonha. Vergonha de falar com aquela menina, de pedir uma informação, ou de levantar a mão quando tinha dúvida. Por mais boba que fosse. Que vergonha.

Vergonha, vergonha, vergonha. Se não fossem marcantes, não seriam vergonhas. Porém, mesmo que umas fossem estéticas, outras sonoras e outras financeiras, não posso negar que foram as melhores vergonhas da minha vida. As vergonhas que me fizeram sentir felicidade, medo, emoção, ódio, tristeza. Ou seja, as vergonhas que me fizeram sentir vivo.

“A vergonha, isso passa quando a vida é longa.”

Jean-Paul Sartre

Macarrão à Marguerita

A mão meio descoordenada. Os olhos baixos, cansados das horas da noite, apenas fixam um ponto no papel. As letras saem um pouco tremidas e garranchosas. Uma piscada a cada vinte segundos. Atrás se ouve um baixo som, saindo do rádio, com um ruído devido à antena quebrada. O cheiro é de álcool, cigarro e das pessoas que pelo seu corpo passaram. Calça em um canto, camiseta noutro. Vê-se uma luz, acesa, em meia fase, iluminando o papel e reluzindo seus olhos opacos. Curvado, e de cotovelos sobre o joelho, ele se esforça para manter uma escrita legível. Ouvem-se uns suspiros, volta e meia, seguidos de uma leve passada de língua no canto da boca. O frio toca sua pele, deixando-o estático.

– Cuco! Cuco! Cuco! Cuco! Cuco!

São 5 da manhã. O relógio cuco, deixado por seu avô, grita na parede. Parece que o que escreve é importante. Não demonstra muita emoção em seu rosto. Sua aparência estática demonstra frieza em seu pensamento. Ele levanta. Vai até a janela, e fica observando os andarilhos da noite que pela sua rua passam. Identifica-se um pouco. Pensa que há pouco tempo atrás, era ele quem habitava a área de outras pessoas. Aproveita para acender um cigarro. A fumaça domina seu quarto. Há de se abrir a janela, mas o frio que corta seu corpo não permite. Olha para o papel, dá uma tossida, apaga o cigarro, e volta para a mesma posição estática de antes. Continua a escrever. Na mesinha de cabeceira, ao seu lado, entre moedas, comprimidos e materiais do trabalho, uma foto. É ele, quando criança. Algo que ele sempre olhava para lembrar-se de quem era. No quarto não se notam muitas fotos expostas. Apenas essa, e a de um cachorro, que penso ter sido seu. Parece alguém sem passado, que procura seu presente para chegar a algum futuro. O que escreve parece ser sua única meta para o momento. Seu estômago revira o cachorro quente que comera antes de chegar em casa.

Talvez seja melhor…

Resmunga, rasurando o que havia escrito. Uma sobrancelha para cima, mostra sua tomada de decisão. Logo ele pega o celular, seleciona um nome, e disca. É uma mulher. Talvez sua namorada, ou amiga. Espera atender.

– Alô?

Uma voz sonolenta, embriagada pela madrugada, atende.

– Apenas me responda uma pergunta.

– Como assim? Você sabe que horas são?

Pergunta a mulher, emendando um forte bocejo.

– Eu sei que você pegou no sono agora pouco, então você conseguirá me responder.

– Sim, sim, sim… Fale logo, quero dormir.

– Marguerita ou Carbonara?

– Ã!?

Exclama a mulher, confusa.

– Apenas responda. Marguerita ou Carbonara?

– Marguerita?

– OK! Obrigado, pequena. Amanhã nos falamos. Durma bem.

Desliga o celular, não dando nem tempo da completa despedida. Volta novamente à sua posição estática. Pega o papel e a caneta, e escreve.

  • Macarrão
  • Tomate
  • Manjericão
  • Azeite

Massa é sua especialidade, e macarrão seu dom. Pega o papel, prende-o com um imã na geladeira, volta para a cama, e dorme o sono dos justos, aliviado por ter terminado sua lista de compras do mercado. Eram os itens que faltavam. Procrastinar nunca foi seu defeito.

“As realizações de um homem na vida são os efeitos acumulativos de sua atenção ao detalhe.”

John Foster Dulles

Quem sois Vós

Prazer, Rui Chevalier dos Santos. Nasci no Rio de Janeiro, mas tenho espírito paulistano. Tenho 34 anos e sou um empresário de sucesso. Comando uma empresa de consultoria para pessoas que desejam investir na bolsa de valores. Comecei do zero. Mesmo sendo de uma família de classe alta, resolvi construir todos os tijolos do meu castelo com minhas próprias mãos. Atualmente meu escritório fica em um dos prédios mais valorizados da Av. Paulista, bem no centro de São Paulo, o coração financeiro do Brasil. Noventa pessoas dependem de mim, diretamente, e vai lá saber quantas, indiretamente. Sou casado com uma bela mulher e tenho um casal de filhos, de quatro anos cada. Tenho um belo carro, conversível, turbo e que chama a atenção de muitas pessoas.

Todos os dias em que vou ao escritório guardo o carro no estacionamento que fica na frente do edifício, atravesso a rua e cumprimento o Jorge. Jorge é mais um dos inúmeros moradores de rua de São Paulo. Porém, ele é diferente. Conhecemo-nos há uns seis anos. Até me lembro da primeira vez em que nos falamos. Eu havia acabado de mudar o escritório para o prédio atual. Como de praxe, deixei meu carro no estacionamento e, atravessando a rua, vi um homem de aproximadamente 60 anos, vestindo uns trapos e levando consigo um carrinho de supermercado cheio de bugigangas, na entrada do prédio. Armani no corpo, Prada nos pés e Rolex no pulso, não pensei duas vezes. Desviei o máximo que pude dele, abaixei a cabeça, e fingi olhar para o relógio. Não queria cruzar os olhos com um homem e ter que sentir piedade dele. Eu tinha tudo, e ele nada. Um falso constrangimento me tomou naquele momento, até que ouvi o homem, com uma voz meio rouca por causa do cigarro, fazer uma pergunta:

– Bonjour, monsieur. Quelles sont les heures dans cette belle Rolex en or?

Travei. Fiquei cerca de cinco segundos parado de frente para a portaria do prédio, olhando para o chão. Minha família, por parte de mãe, é toda do Rio de Janeiro. Antiga e tradicional na cidade, fazia parte de uma linha francesa que havia colonizado o Rio, em 1555. Francês foi a minha segunda língua, depois do português. Jorge havia me perguntado as horas, já que eu olhava para o relógio. Espantado, olhei para ele e respondi:

–          Huit heures et demie !

–          Merci !

Jorge agradeceu, pegou seu carrinho e dirigiu-se à esquina. Desde esse dia, comecei a me interessar pela vida daquele homem de meia idade, cujo único bem de valor era um carrinho de supermercado e umas tralhas. Todas as manhãs, depois de estacionar o carro, eu atravesso a rua e proseio com o Jorge. Português, Inglês, Francês, Espanhol e até um pouco de Alemão. No início, não falávamos nada em específico e pessoal. Apenas comentávamos sobre o tempo, os últimos acontecimentos na política internacional e o movimento na rua. As conversas com Jorge me deixavam intrigado. Como um morador de rua, que mendiga pela cidade para sobreviver, poderia saber tanto de tudo?

Os anos foram passando e fui conhecendo o homem. Jorge era de uma família rica e muito influente em São Paulo, dos anos 50 ao final dos 80. Quando jovem havia se mudado para o Rio de Janeiro, com o objetivo de entrar no ramo da construção civil, que ascendia na época. Lá, conheceu uma mulher e blá, blá, blá. Típica história de novela das nove. Jorge construiu seu império, independente de sua família que ficara em São Paulo. Virou um dos empresários mais notáveis do Rio de Janeiro, na década de 70. Era apenas ele e a mulher. Viajavam o mundo e adoravam conhecer as outras culturas. De família rica, já traziam isso de berço. Já algum tempo juntos, sua esposa, a qual não se lembra do nome, engravidou. Como eu disse, Jorge não se lembra do nome da esposa. Jorge, na realidade, diz não se lembrar de nada. Nem do próprio sobrenome. Sem lenço, e nem documento. A única coisa que Jorge diz se lembrar, é de estar sentado no pé de uma cama, em um quarto apertado e pouco ventilado, chorando ao ver sua mulher e seu filho de três anos irem embora. Jorge apenas lembra-se de sua vida, até certo ponto, e desta cena. Hoje ele é um mendigo. Vaga pelas ruas de São Paulo, catando latinhas e sucatas, com seu carrinho de supermercado. Volta e meia diz coisas desconexas, embola algumas das cinco línguas que sabe falar.

Apesar de sua bagagem cultural, Jorge é um mendigo como outro qualquer. Mas não sei. Algo nele me intriga e me fez criar um vínculo com ele. Talvez seja porque eu me espelhe nele, mesmo ele sendo um mendigo. Sua história, seu modo de vida. Mesmo tudo dando errado, ele ainda vivia. Vivia uma vida que não era mais a dele, mas continuava e seguia em frente. Também talvez seja porque eu sinta algumas afinidades entre nossas histórias. Moramos praticamente nas mesmas cidades. Falamos várias línguas e temos um ótimo gosto musical. Além disso, fui criado pela minha mãe apenas. Conheci meu pai, mas era muito novo. Não me lembro de nada dele, e sobre ele. Segundo minha mãe, tínhamos uma vida muito boa. Ela me disse que a ruína de tudo foi o álcool, que definhou e enlouqueceu meu pai. Perderam tudo. Minha mãe diz que aguentou maus bocados ao lado dele, até o dia em que decidiu voltar para o Rio de Janeiro. De volta ao Rio, ela fez de tudo para retirar o nome do meu pai da minha certidão de nascimento. E conseguiu. Sou filho de pai desconhecido. Já me acostumei com isso, mas quando era jovem sofria de mais. Não tenho algum contato, com qualquer pessoa da família do meu pai. Minha mãe diz que ele morreu. Não acredito muito, pois nunca vi a certidão de óbito. Mas se ela diz, eu prefiro acreditar. Posso não ser um mendigo, mas conheço bem esse tal de drama familiar.

Hoje, Jorge e eu somos ótimos amigos. Eu o ajudo, comprando algumas coisas que ele precisa. Orgulhoso, o velho não gosta de aceitar. Mas eu insisto e ficamos bem. Neste exato momento estou sentado na minha cadeira, na minha sala do escritório, comendo um pedaço de bolo que o Jorge me deu. Hoje é meu aniversário e desde que viramos amigos ele me dá de presente um pedaço de bolo. Como ele sempre diz:

 – Foram dois sacos de latinha.

Eu rio e agradeço. Jorge faz isso porque coincidentemente o filho dele fazia aniversário no mesmo dia que eu, e nasceu no mesmo ano que eu. Jorge diz que somos anjos da mesma nuvem.

Jorge, grande homem.

“O que verdadeiramente somos é aquilo que o impossível cria em nós.”

Clarice Lispector

Velho, maduro ou apenas duro

Velho, maduro ou duro?

Anos se passam e cada um de nós muda. Muda na aparência, muda de tamanho, tanto horizontal quanto vertical, muda de freqüência, timbre e tom de voz. Nosso cabelo fica mais grosso, e muitas vezes o acompanhamos nessa mudança com o nosso humor. Nossos gostos, sonhos e realizações mudam também. O que antes era algo que pudesse estar ali ao nosso alcance agora não passa de algo platônico. Nosso coração é o comandante de toda essa mudança, acompanhado pelo cérebro que o dá uma racionalidade implacável. Calos são feitos neste órgão que pulsa 24 horas por dia. Ficamos mais ásperos com as pessoas, amamos menos, aceitamos menos suas pulsações e o pior, não ligamos muito para o que sente.  Será que nos tornamos velhos, maduros ou apenas duros?

Nossa idéia de felicidade é totalmente contrária à quando éramos puramente crianças, sem muitos planos e problemas. Um dia vivemos sem ao menos nos preocuparmos com o perigo. O que significava a palavra problema? Uma prova de matemática pode até ser, nada que não se resolvesse com um pouco de estudo. Hoje vivemos com medos e receios. Falta de trabalho, perspectiva de vida sendo vista de muito longe, um filho, contas para pagar e tantos outros seguimentos da vida adulta. Aí um dia nos perguntamos se isso é tudo na vida, se isso é um problema sendo usado no exato significado da palavra. Será que nos tornamos velhos, maduros ou apenas duros?

Para nós antes as festas eram curtidas com muitos pulos, brincadeiras que as vezes eram até um tanto violentas mas que não preocupavam ninguém pois estavam todos apenas se divertindo. As roupas eram mais extravagantes e nos enfeitávamos com todos os tipos de penduricalhos. Com o tempo sentimos músicas que nos tocam mais o inconsciente, nos fazendo viajar. A dança já não é mais tão aeróbica, foi trocada por passos marcados, movimentos elaborados ou apenas expressões corporais sutis. Roupas comportadas e mais simples nos apetecem. Quando vemos alguém que sai desse círculo já viramos o olho e rimos ou desaprovamos. Será que nos tornamos velhos, maduros ou apenas duros?

Antes a caminhada pelo beijo desejado era emocionante e sempre mostrávamos o melhor de nós ao outro. Agora um beijo não é mais um simples beijo terno e puro, com o movimento das línguas tem-se um gosto mais sensual, quase sempre com uma intenção além daquilo. A busca pelo prazer nos corre entre as veias. Notamos que nas pessoas de mais idade nem o beijo e muito menos o sexo os excita mais. Apenas a companhia já os basta. Será que nos tornamos velhos, maduros ou apenas duros?

Velho, maduro ou duro, o que importa realmente é ser feliz.

“O tempo é um ponto de vista. Velho é quem é um dia mais velho que a gente…”

Mário Quintana

Onipotência

O que você deseja? Aparecer na televisão, falar no rádio, coluna social? Quer ser uma subcelebridade? Eu consigo, afinal, sou jornalista. Eu posso tudo, posso mais até do que os advogados, que pensam que podem tudo. Aliás, colegas meus já até conseguiram sujar a cara de um advogado da atualidade. Aquele que defendia o Bruno, ex-goleiro do Flamengo que, supostamente, matou uma mulher. Deve ter sido tão legal, flagrar um advogado, que estava na mídia, fumando crack. Posso te fazer Rei, mas, também, posso te fazer plebeu do dia para a noite. Pode parecer um pouco de onipotência, mas é a total realidade. Tenho na minha mão a arma mais devastadora hoje em dia, a palavra. Pagando bem, que mal tem? Uma mentirinha aqui, um pouco de sensacionalismo ali. Sou pago para isso. Tragédias? Adoro! Rendem hora extra, mais tempo na mídia e, por consequência, mais dinheiro. Morro do Bumba, caso Bruno, enchentes na zona serrana do Rio, invasão do Alemão… Ótimas oportunidades para virar repórter de rede. Aparecer no Brasil inteiro, quiçá até no exterior. Quanto mais palavras fortes, tristes e sensacionalismo, melhor. A lágrima da senhorinha que perdeu seus oito filhos e o marido, com o desabamento de sua casa na periferia, poderá até render um prêmio no final do ano. Eu quero chocar, eu quero aparecer, eu quero ganhar dinheiro. Não sou Deus, mas sou o representante dele na terra. Adoro dar opiniões, fazer questionamentos sobre tudo, pois eu sei, sempre tenho razão. Faço da página do Word, na tela do meu computador, uma espécie de tribunal, onde eu sou o juiz, o advogado e o júri. Julgando e condenando sempre um pobre coitado. Pobre coitado… Uns me chamam de puxa saco, mas prefiro dizer que sou um ótimo aproveitador de oportunidades. Que mal há em ganhar um jantarzinho, do político de Brasília? Ou uma graninha a mais no final do mês para transformar um suspeito em assassino? Eu pendo para o lado que o vento soprar cheiro de fama, dinheiro e sucesso, pois… Eu posso tudo! Não gostou? Mude de canal, de estação de rádio, ou vai ler a CARAS.

“Às vezes, a única coisa verdadeira num jornal é a data.”

Luis Fernando Veríssimo